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#538 Carta Aberta: O Escândalo e o Papel do Humor

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Legenda

Post Scriptum de migalhas aleatórias:

  • A Salton informa possuir 469 colaboradores. No LinkedIn da Salton, dos 293 funcionários cadastrados na plataforma, 42 trabalham com marketing, comunicação e mídia. Na Aurora, são 28 para 160. É gente pra caramba. O resultado são prêmios Top of Mind, medalhas de Ouro e onipresença nos canais de venda. Quantos funcionários são encarregados na fiscalização e auditoria do trabalho? O LinkedIn não diz, mas pelos acontecimentos observados, provavelmente poucos ou nenhum.
  • Em 2022, a Salton teve faturamento superior a R$ 500 milhões, recorde histórico nos 112 anos da empresa, a partir de 192ha de vinhas próprias e 900ha de vinhas compradas. A Vinícola Aurora informou R$ 746 milhões de faturamento para 2,8 mil hectares de vinhedos. Por quanto estão comprando as uvas dos ‘parceiros’? Pois sabemos que o vinho vendido é bem caro.
  • Em 1985 a indústria vitivinícola da Áustria entrou em colapso por conta de um escândalo: os produtores estavam adicionando Dietilenoglicol (o mesmo contaminante das cervejas Backer) nos vinhos exportados para Alemanha e Suíça. No ano seguinte, a indústria vitivinícola austríaca era 1/10 daquela anterior ao escândalo. Empresas fecharam, maus empresários foram banidos em meio a um intenso escrutínio governamental. Levou 15 anos para recuperarem. Hoje, os vinhos austríacos são considerados referências. E sim, eles permitem vinhos naturais. Isso não tem a ver com trabalho análogo à escravidão, mas a como uma decadente indústria vinícola em crise se viu obrigada a se reerguer sob novos parâmetros.
  • Brutal & Bastardos faz duas menções vínicas: Brutal é o nome dado uma série de vinhos naturais produzidos por diversos produtores ao redor do mundo. Bastardo é o nome de uma uva em Portugal, que na França é chamada de Trousseau. Tive como inspiração o magnífico trabalho do @raphabaggas (que faria tudo isso muito melhor do que eu).

Transcrição

(Texto apresentado em cartelas sequenciais)

Oi pessoal. Bem vindos.

Muitos que chegaram aqui nos últimos dias nunca haviam ouvido falar do BEBI O DICIONÁRIO. Outros até voltaram após ficarem algum tempo distante.

Este é um espaço de comédia e vinho. Eu faço piadas com tudo que tem a ver com vinho. É isso. Eu trabalho no universo da síntese; do humor, da ironia, do duplo-sentido, da charge, do cartum, da mimese. São cinco anos disso, comemorados efusivamente semana passada. Bem vindos Habibs, como repete incansavelmente minha vizinha libanesa.

Algumas vezes eu não faço piada, mas reajo a uma denúncia. Foi assim ano passado, com a sanha garimpeira do dono da Vinícola Guaspari em terras indígenas. 

(Alguém se lembra? Alguém vê paralelos com a catástrofe Yanomami? Que coisa, né?). Para não falar do vinhateiro anti-vacinas de 2021...

A charge BRUTAL & BASTARDOS, postada na noite de sexta-feira, também não é piada e circulou muito. É gravíssima a denúncia de trabalho análogo à escravidão praticado – sob o eufemismo da terceirização – por Família Salton, Vinícola Aurora e Vinícola Garibaldi.

BRUTAL & BASTARDOS é uma reação instintiva ao absurdo. Mas é apenas síntese gráfica, não é explicação, não é análise, não é ponto de chegada. Nesta síntese, perdem-se os pormenores, mas acelera a mensagem. Se alguns criticaram o oportunismo da minha acelerada mensagem superficial, que se danem. É assim que eu faço.

Mas há outras pessoas centrais, inovadoras e inquietantes no mundo do vinho que ofereceram opiniões mais aprofundadas sobre o tema. Ainda que haja uma condenação unânime às práticas de trabalho análogo à escravidão, essas visões são muito distintas. Isso é maravilhoso, pois oferecem ferramentas diferentes para entender e abordar o problema. Procurem essas pessoas.

(Curiosamente, os comentários mais esclarecedores e provocantes foram feitos por mulheres e pessoas LGBTs, gente que regularmente e com muita sensibilidade enquadra o mundo do vinho através das causas feministas e/ou LGBT.)

Por aqui, o conteúdo é difuso. Não tem objetivo, mas talvez sirva para que se desvencilhem das revistinhas de vinho, do jabá, dos influencers pagos, dos departamentos de marketing autogratificantes, do Vivino, das medalhas, dos RP94, do mesmo Malbec de sempre, do clube de vinhos em que o fulano que escolhe o vinho ganha ‘kickback’ do produtor, daquele segundo vinho mais barato na carta que você sempre escolhe.

Se aqui não é um ponto de chegada, que seja para a largada.

Falei demais. Bem vindos, Habibs.

Explicação

Este post é um editorial sério em meio ao humor habitual da conta, servindo como posicionamento do autor diante da repercussão do post anterior sobre o trabalho escravo nas vinícolas.

  1. Contextualização e Manifesto: O autor se apresenta aos novos seguidores que chegaram através da viralização da denúncia. Ele define o perfil como um espaço de síntese humorística, mas reafirma o compromisso de usar essa visibilidade para reagir a denúncias graves (citando casos anteriores como o garimpo em terras indígenas ligado à Guaspari e negacionismo na pandemia).
  2. Análise Corporativa (Legenda): A legenda traz dados duros sobre a desproporção entre o investimento em imagem e a responsabilidade social. O autor aponta que as vinícolas (Salton e Aurora) possuem grandes equipes de marketing para garantir prêmios e vendas recordes, mas falham na fiscalização básica da cadeia produtiva que gerou lucros históricos.
  3. O Paralelo Austríaco: O texto relembra o escândalo do dietilenoglicol (anticongelante) em vinhos austríacos em 1985. O autor usa esse exemplo histórico para argumentar que a indústria brasileira precisa de um "colapso" e refundação ética semelhante ao que ocorreu na Áustria, que hoje é referência de qualidade, em vez de apenas notas de repúdio vazias.
  4. Desmistificação da Indústria: O autor encerra criticando o ecossistema viciado do vinho (jabá, pontuações compradas, influenciadores pagos), posicionando o Bebi o Dicionário como um ponto de partida para o pensamento crítico, e não apenas entretenimento.

Originalmente publicado